3 Casas para 3 Irmãs

Numa pequena vila próxima da cidade de Coimbra, 3 irmãs herdam um terreno e partilham-no. Pretendem nele construir uma casa de habitação que as vai juntar pela segunda vez nas suas vidas. As casas de família que possuem são agora demasiado grandes.

Situado na entrada da vila, com uma forte ocupação comercial, este terreno está configurado por duas ruas, um largo e uma pequena casa. A implantação das 3 casas elege como alçado principal a exposição a sul, confinante com a rua, e dobra para o largo, a nascente.

Do terreno existente apenas ficou o velho muro, em pedra de Ançã, que abraça o terreno a norte e a nascente e suspende o piso de habitação no alçado virado ao largo 1º de Maio. Paralelamente ao muro em pedra, constróiem-se outros três muros em betão armado aparente que delimitam os 3 lotes e suportam as 3 casas, definindo cunhos de suspensão de toda a volumetria do piso superior. Os vazios resultantes, no piso térreo, encerram-se com vidros de grande dimensão que são ocupados por comércio e serviços.
Entre casas, no piso superior, há interrupções que articulam percursos transversais que ligam visualmente as 2 ruas paralelas, ou os 2 jardins, desfazendo, ritmando e dando autonomia volumétrica a cada uma das 3 casas.
Da implantação da construção retiram-se a norte os jardins privados e a sul os jardins comuns. Há também um piso enterrado para garagem.

Da vila mais próxima vem a pedra de Ançã, que foi muito utilizada na grande parte dos edifícios da cidade de Coimbra, mestres italianos trabalharam-na para esculpirem a decoração das fachadas dos monumentos. A sua presença no muro existente levou a que este fosse desmontado e a sua pedra guardada, sendo posteriormente reconstruído na sua totalidade. Juntamente com a história da pedra da região, estes foram os motivos que levaram ao uso do mesmo material para revestimento de pavimentos e paredes dos espaços interiores e exteriores: galerias, passeios, espaços comerciais e instalações sanitárias são assim revestidos com esta pedra e algumas peças maciças são esculpidas para lavatórios ou degraus soltos.

No interior, a habitação desenvolve-se verticalmente nos 3 pisos, num volume que contem a caixa de escadas. Subimos e entramos num corredor centralizado no espaço, o pé direito reduzido, oculta a estrutura e reveste-se em madeira de cor quente, criando um volume autónomo cujas portas ocultas pelos extensos painéis de afizélia se abrem para um lado e para o outro, revelando os diferentes espaços funcionais. Este “volume” é também “caixa de luz”. A sua espessura contem a iluminação artificial, contida na arquitectura, que serve os diferentes espaços da casa. E desta forma é conseguida uma uniformização da iluminação nocturna do conjunto das 3 casas, ao longo dos extensos envidraçados virados aos campos do rio Mondego.

Junto ao muro em pedra foi construída uma fonte, que substitui uma existente degradada, cujo desenho pretende dar continuidade e coerência ao projecto das 3 casas. Foi totalmente esculpida num bloco da mesma pedra. A torneira em latão existente na velha fonte foi repetida em sua memória e um “pára-salpicos” foi também colocado no mesmo material. A inexistência de um passeio levou à sua edificação que, juntamente com a fonte, recria a relação deste pequeno equipamento comunitário com o largo, respeitando assim o valor do património edificado.

O conjunto destaca-se da envolvente pelo desenho contemporâneo, integrando-se quer pelo cuidado e rigor dos detalhes construtivos, quer pela escala e proporção dos volumes, quer pelas cores e materiais utilizados, pretendendo assumir-se como obra arquitectónica.

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Informação Técnica
Co-autoria (projecto de licenciamento): José Pedro Caetano
Engenheiro Estrutural: Luís Godinho
Colaboração: Luís Bonito, Marco dos Santos
Área de Intervenção: 430m2
Datas: 2002 - 2009
Fotografia: FG+SG Fotografia de Arquitectura

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Publicações:
Casas de Portugal, Media Capital, Abril 2009
FG + SG - Fotografia de Arquitectura | www.ultimasreportagens.com
ArchDaily | www.archdaily.com
DARCO Magazine | d-arco.blogspot.com
Exposição | Prémio de Arquitectura Diogo Castilho 2011 - Casa Tait, Porto

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